Muito além dos sons: musicoterapia vira ponte para comunicação e regulação emocional em Sorocaba
Entre dança e leitura: mãe atípica incentiva filho e mostra o impacto da musicoterapia A musicoterapia, termo que pode não ser amplamente conhecido, vai mui...
Entre dança e leitura: mãe atípica incentiva filho e mostra o impacto da musicoterapia A musicoterapia, termo que pode não ser amplamente conhecido, vai muito além do ato de ouvir ou tocar canções. A prática utiliza a música como um importante recurso terapêutico de saúde mental e bem-estar global. O Dia Nacional da Musicoterapia é celebrado nesta terça-feira (15). Em Sorocaba (SP), essa técnica tem sido grande aliada não só no desenvolvimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas no acompanhamento de crianças, adultos e idosos. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp O objetivo é utilizar as experiências musicais para favorecer a comunicação, o vínculo e a regulação emocional, sendo indicada tanto para demandas de socialização e expressão quanto para o manejo da ansiedade e das frustrações. Em clínicas especializadas, como o Centro de Terapia Ocupacional e Terapias Integradas de Sorocaba (CTO), a musicoterapia é inserida em um Plano Terapêutico Individualizado (PTI). O trabalho é realizado em sintonia com áreas como Fisioterapia, Psicologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e abordagens baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e o Modelo Denver. A integração permite um acompanhamento contínuo e alinhado aos objetivos de autonomia e qualidade de vida de cada paciente, considerando seus interesses e particularidades. LEIA TAMBÉM Morador de Sorocaba desenvolve plataforma gratuita para auxiliar famílias atípicas Dia do Autismo: moradores de Sorocaba relatam que terapias ajudam na autocompreensão do diagnóstico Transtorno do Espectro Autista: legislação avança em Sorocaba com 38 projetos de lei, mas aplicação de direitos ainda é desafio 🔈 O som que conecta Ao g1, a musicoterapeuta Josiane Vieira de Camargo, de 47 anos, que atua no CTO e integra equipes multidisciplinares, explicou como funciona a aplicação prática da terapia. Dentro dos consultórios, a teoria ganha vida por meio do som. Com 20 anos de experiência como professora de Arte e Musicalização, há um ano ela encontrou na musicoterapia o seu caminho profissional. "Percebi que poderia ser muito mais do que música: poderia ser uma forma de ajudar no desenvolvimento, na comunicação e no vínculo com as pessoas. Foi isso que me encantou", afirma. Musicoterapeuta Josiane Vieira de Camargo Divulgação/CTO Na sala de atendimento, a música funciona como ferramenta terapêutica por meio de atividades lúdicas, ritmo, movimentos e brincadeiras musicais, sempre adaptadas às necessidades e objetivos de cada paciente. "A música costuma acessar áreas do cérebro de uma forma muito única. Muitas vezes, ela consegue despertar o interesse de uma criança que inicialmente não demonstra interesse pela interação. Uma criança pode começar olhando, depois se aproximando, imitando um movimento, fazendo uma escolha ou participando de um refrão. É a partir desses pequenos momentos que conseguimos construir o vínculo", explica a especialista. 🧠A música como âncora Um dos maiores desafios enfrentados por familiares envolve a regulação emocional e o manejo de comportamentos desafiadores. Nesses momentos, a música atua como uma âncora para a organização mental. A descoberta das preferências de pacientes não-verbais ocorre pela observação do que a terapeuta conceitua como "identidade sonora". "Mesmo uma criança que não fala consegue demonstrar suas preferências. Ela pode olhar mais para determinado instrumento, se aproximar, sorrir, vocalizar ou demonstrar interesse por determinado ritmo. Nós observamos essas respostas e vamos descobrindo o que realmente faz sentido para aquele paciente", detalha. Muito além dos sons: como a musicoterapia auxilia o desenvolvimento e tratamento de pacientes em Sorocaba Divulgação 🎵 Música como ponte A evolução do tratamento vai além do ambiente clínico. A orientação dos profissionais é que as rotinas de desenvolvimento continuem em casa, com o suporte dos familiares. A paulistana Kelly Cristina Soares Ribeiro, de 53 anos, mora em Sorocaba há cinco anos com o marido e o filho, Moisés, de 22 anos, diagnosticado com autismo nível 2 de suporte. Veja o vídeo no começo da reportagem. Após obter o atendimento multidisciplinar no CTO Sorocaba via determinação judicial, Moisés passou a realizar sessões de musicoterapia há aproximadamente nove meses. Kelly relata que o filho sempre demonstrou interesse por trilhas sonoras de filmes de animação, mas a terapia ampliou o repertório e transformou a música em uma ferramenta de comunicação diária. “Moisés já tinha um interesse em música, mas era um meio de hiperfoco. Ele sempre gostou dos filmes de animação e sempre cantava as trilhas, mesmo que em inglês. A musicoterapia abriu essa janela para o interesse do meu filho para a música”, afirma. Kelly Cristina e Moisés Arquivo Pessoal Segundo Kelly, a terapia mostrou que seu filho se conecta por meio da música e compreende os sentimentos transmitidos pelas canções. “Ele tem uma playlist no carro que varia de acordo com o sentimento dele do dia, varia de acordo com o lugar que estamos indo.” Para a mãe, a musicoterapia permitiu compreender a comunicação do filho no cotidiano e serviu como rede de apoio para a rotina familiar atípica. O suporte técnico auxilia no manejo da fase adulta do jovem e na compreensão de sua individualidade. “Eu fiquei durante muito tempo achando que o autismo era o Moisés ou que o Moisés era o autismo. E o Moisés tem autismo, isso é muito diferente. Uma coisa é muito diferente da outra. Através dos terapeutas eu descubro o Moisés e uma das características desse Moisés é que ele tem autismo. Mas ele tem outras inúmeras características”, declara. 🎶A profissão Musicoterapeuta Suzana Brunhara, de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal A musicoterapeuta Suzana Brunhara, de 50 anos, também de Sorocaba, tem quase 30 anos de carreira na área e explicou o processo de aprendizado e aperfeiçoamento necessário para se tornar um profissional da área. Segundo a especialista, é preciso ter conhecimento prévio de prática e técnica musical para iniciar a especialização. Além da música, o curso de musicoterapia aborda áreas da psicologia e da neurologia. De acordo com a especialista, a terapia é indicada para qualquer pessoa, mas é preciso ter cuidado com o chamado efeito iatrogênico, que é qualquer alteração prejudicial, dano ou efeito adverso na saúde do paciente provocado por uma intervenção médica, cirúrgica ou terapêutica. "Meus pacientes são desde crianças neurodivergentes, crianças com questões escolares, emocionais que buscam outro canal de expressão e comunicação que é através da linguagem e expressão musical. Também atendo pacientes idosos com Alzheimer e Parkinson. Hoje atendo muitos adolescentes e adultos com burnout, depressão, ansiedade e que buscam autoconhecimento, utilizando a Musicoterapia Vibroacústica", disse Suzana. A musicoterapia aborda, além da música, áreas da psicologia e da neurologia, segundo especialista de Sorocaba (SP) Suzana Brunhara/Arquivo pessoal 🎹 Instrumentos Segundo Suzana, qualquer instrumento musical pode ser usado na musicoterapia, até mesmo o próprio corpo e a voz, por meio de palmas e percussão corporal. Além dessa parte lúdica, instrumentos tradicionais como piano, violão e percussão, que inclui tambores, maracas, reco-reco, ou qualquer outro objeto capaz de produzir som, como o arrastar de uma cadeira, um batuque em uma mesa ou o balançar de um papel, podem se transformar em recursos terapêuticos. A especialista reforça que, para cada paciente, independentemente da idade, é feita uma entrevista inicial na qual são coletadas informações importantes para traçar a estratégia e o plano terapêutico. "Eu utilizo a mesa lira como instrumento da musicoterapia desde 2002 e, depois, fui agregando outros para complementar os resultados da terapia. Na Musicoterapia Vibroacústica, utilizamos puramente os efeitos físicos do som (as frequências sonoras) no corpo da pessoa. Essas frequências são recebidas pelas vias auditiva e tátil, trazendo uma melhor percepção corporal. Elas podem ativar lembranças e emoções, melhorar a autopercepção e auxiliar no controle respiratório, no equilíbrio da frequência cardíaca, no relaxamento profundo e no manejo de crises", explicou. A mesa lira, também conhecida como monochord table, no inglês, é uma grande caixa de ressonância, na qual é possível deitar. Existem 42 cordas de aço afinadas na parte de baixo, normalmente, em ré, que podem ser tocadas. Veja no vídeo abaixo. Musicoterapeuta de Sorocaba usa mesa lira para sessões 🎺 Benefícios para crianças e adultos Suzana afirma que a musicoterapia é importante para as crianças porque favorece a intenção comunicativa, a iniciativa, a expressão verbal e não verbal, e a ampliação da comunicação nessa faixa etária. Além disso, a terapia ajuda a trabalhar a interação social, as funções executivas, a regulação emocional, a autorregulação sensorial, o desenvolvimento motor, a flexibilidade, a autonomia e a criatividade. Para os adultos, a especialista destaca que a musicoterapia auxilia na regulação emocional, na redução do estresse e da ansiedade, na autopercepção, na consciência corporal, na autorregulação e na ativação da memória. A melhora na qualidade do sono e de vida, bem como o autoconhecimento, também são alcançados com a prática. A terapia contribui, ainda, para a reabilitação de movimento, marcha, fala, cognição e funções sensoriomotoras, conforme indicação clínica. 👩👦👦Terapia em família A professora Rosiane Aparecida Papa Segura, de 54 anos, também de Sorocaba, iniciou as sessões de musicoterapia após acompanhar a evolução dos dois filhos com o tratamento. "Eu sabia da importância da música em nossas vidas e ouvi falar sobre a musicoterapia, mas não conhecia ainda. Por volta de 2007, estava procurando algo para os meus filhos que os ajudasse no desenvolvimento por completo. Foi aí que percebi que eles precisavam canalizar a energia e, ao mesmo tempo, trabalhar o emocional e o psicológico", relata. Rosiane Segura, seu marido e os filhos do casal, Bernardo à esquerda e Nicolas à direita Arquivo pessoal Seus filhos, Bernardo e Nicolas, na época com 4 e 2 anos, respectivamente, começaram as sessões. Segundo a mãe, os benefícios foram incontáveis e incluem melhorias motora, auditiva e corporal, além de ganhos emocionais e psicológicos. A prática também os ajudou no desenvolvimento escolar, colaborando com o foco, a memória e a socialização. "Eles fizeram musicoterapia por um bom tempo, até mais ou menos a pré-adolescência. Na sequência, eu comecei a fazer também. No meu caso, mais pelo emocional, e faço até hoje. A musicoterapia ajudou muito no desenvolvimento dos meus filhos e no meu também. Posso afirmar que tive mudanças significativas na forma de pensar, de ver a vida e até de comportamento", afirma. Rosiane enfatiza que teve redução de estresse e ansiedade com as consultas, o que a ajudou a ter mais calma para refletir e tomar decisões. "Eu digo que a musicoterapia foi um grande auxílio em nossas vidas, trazendo mudanças significativas e atendendo minhas expectativas de canalizar nossa energia num processo de desenvolvimento evolutivo. A musicoterapia combina arte e ciência (...) Posso afirmar que o trabalho da Suzana mudou nossa história no ambiente doméstico, fortalecendo nossas relações afetivas enquanto família, nossa comunicação e o uso afetivo da música no nosso cotidiano. A música é muito presente em nossas vidas", destaca. A família tem instrumentos em casa e, vez ou outra, reúne-se para tocar e fazer alguns sons, o que sempre desperta boas emoções Rosiane Aparecida Papa Segura, à esquerda, também é de Sorocaba (SP) e iniciou as sessões de musicoterapia após acompanhar a evolução dos dois filhos com o tratamento Arquivo pessoal *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM